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TENHO CÂNCER DE MAMA E UMA MUTAÇÃO BRCA: PRECISO RETIRAR AS DUAS MAMAS?

Receber o diagnóstico de câncer de mama já é um momento de grande impacto. Quando, além disso, o teste genético revela uma mutação nos genes BRCA1 ou BRCA2, muitas mulheres sentem que precisam tomar uma decisão imediata e radical.

Uma frase aparece com frequência no consultório:

“Então tire as duas mamas. Não quero passar por isso novamente.”

Esse sentimento é compreensível. Quando estamos diante de uma doença que provoca medo, é natural imaginar que fazer a maior cirurgia possível significará ter a maior proteção possível.

Mas existe uma diferença fundamental entre três objetivos:

tratar o câncer que já existe, reduzir o risco de desenvolver outro câncer e aumentar a chance de sobreviver.

Esses objetivos estão relacionados, mas não são exatamente a mesma coisa.

Por isso, antes de decidir por uma mastectomia bilateral, é importante compreender o que essa cirurgia realmente pode oferecer — e também aquilo que ela não pode garantir.

O que significa ter uma mutação BRCA?

BRCA1 e BRCA2 são genes envolvidos no reparo do DNA. Quando uma pessoa nasce com uma alteração patogênica em um desses genes, aumenta sua predisposição a alguns tipos de câncer, especialmente câncer de mama e câncer de ovário e trompas.

Mas ter uma mutação BRCA não significa que todas as mulheres tenham exatamente o mesmo risco.

BRCA1 e BRCA2 são diferentes. A idade também importa. História familiar, idade ao primeiro câncer, características do tumor e tratamentos realizados podem modificar o risco individual.

Depois de um câncer em uma mama, portadoras de BRCA também apresentam maior risco de desenvolver, no futuro, um novo câncer na outra mama.

Em estudos de acompanhamento prolongado, esse risco pode ser bastante significativo, principalmente em mulheres diagnosticadas jovens.

É justamente por isso que a possibilidade de retirar a mama contralateral saudável entra na conversa.

Mas a pergunta não deveria ser apenas:

“Tenho BRCA. Devo retirar a outra mama?”

Uma pergunta muito melhor é:

“Qual é o meu risco considerando meu gene, minha idade, o câncer que eu tive e os tratamentos que vou receber?”

Quais são as opções cirúrgicas?

Dependendo das características do câncer, uma portadora de BRCA pode ter mais de uma alternativa.

  • Cirurgia conservadora

Na cirurgia conservadora, retira-se o tumor com margens adequadas e preserva-se grande parte da mama.

Em geral, a radioterapia faz parte desse tratamento.

A presença de BRCA1 ou BRCA2, isoladamente, não significa que a paciente esteja proibida de conservar a mama.

O que precisa ser compreendido é que continuará existindo tecido mamário e, consequentemente, continuará existindo risco de novos tumores ao longo da vida.

Isso exige acompanhamento apropriado.

  • Mastectomia apenas da mama com câncer

Outra possibilidade é retirar a mama onde está o tumor e preservar a mama saudável.

Nesse caso, o câncer atual é tratado com mastectomia, mas a outra mama permanece.

A paciente precisa então aceitar o risco futuro relacionado ao BRCA e manter uma estratégia adequada de vigilância.

  • Mastectomia bilateral

Na mastectomia bilateral, retira-se a mama onde está o câncer e também a mama contralateral saudável com a finalidade de reduzir o risco de um novo câncer.

Para algumas mulheres, essa será exatamente a escolha que faz mais sentido.

Mas é importante entender por quê.


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A mastectomia bilateral impede um novo câncer?

Reduz muito o risco, mas não o elimina completamente.

Esse detalhe é extremamente importante.

Nenhuma mastectomia consegue retirar absolutamente todo o tecido mamário.

A mama não é um órgão envolvido por uma cápsula perfeitamente definida. Pequenas quantidades de tecido mamário podem permanecer próximas à pele, ao músculo peitoral, na região axilar ou ao redor do mamilo.

Nas técnicas que preservam a pele e, principalmente, o complexo aréolo-papilar, também existe um equilíbrio entre retirar o máximo possível de tecido glandular e manter uma circulação sanguínea adequada para os tecidos preservados.

Portanto, mesmo uma mastectomia tecnicamente muito bem realizada pode deixar uma pequena quantidade de tecido mamário residual.

É por isso que o termo mais adequado é:

mastectomia redutora de risco.

E não:

mastectomia que elimina o risco.

A cirurgia pode diminuir drasticamente a possibilidade de um novo câncer naquela mama, mas não pode oferecer risco zero.

E retirar as duas mamas aumenta a chance de sobreviver?

Essa é uma pergunta diferente.

Um importante estudo internacional avaliou mulheres com câncer de mama e mutação BRCA1 submetidas a cirurgia conservadora, mastectomia unilateral ou mastectomia bilateral.

Depois dos ajustes estatísticos necessários, não foi demonstrada uma redução estatisticamente significativa da mortalidade com a mastectomia bilateral.

Isso precisa ser explicado com precisão.

Não significa que esteja provado que nunca possa existir algum benefício de sobrevida.

Significa que, com os dados disponíveis naquele estudo, esse benefício não foi demonstrado de forma estatisticamente convincente.

Os próprios pesquisadores apontam a necessidade de acompanhamento mais prolongado.

Por outro lado, o efeito da cirurgia bilateral sobre o risco de câncer contralateral é muito mais claro: ela reduz de maneira importante a possibilidade de um novo tumor na outra mama.

Portanto:

reduzir a chance de outro câncer de mama não é necessariamente a mesma coisa que aumentar a chance de sobreviver ao câncer que já foi diagnosticado.

Por que isso acontece?

Porque a cirurgia da mama saudável atua principalmente sobre um possível câncer futuro.

Ela não consegue eliminar células do câncer original que eventualmente tenham saído da mama antes da cirurgia.

O prognóstico do primeiro câncer depende de muitos outros fatores:

  • tamanho do tumor;
  • comprometimento de linfonodos;
  • características biológicas;
  • receptores hormonais;
  • HER2;
  • resposta ao tratamento;
  • quimioterapia;
  • endocrinoterapia;
  • radioterapia;
  • terapias-alvo quando indicadas.

Por isso, uma cirurgia maior não deve ser confundida automaticamente com um tratamento oncológico mais potente.


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“Mas eu quero tirar tudo para nunca mais passar por isso”

Essa talvez seja uma das frases mais humanas dessa discussão.

A possibilidade de um segundo câncer assusta.

Algumas mulheres convivem bem com mamografias, ressonâncias e acompanhamento periódico. Para outras, cada exame produz semanas de ansiedade.

Isso também importa.

Uma paciente pode compreender perfeitamente que não existe benefício de sobrevida comprovado e, ainda assim, decidir:

“Para mim, reduzir ao máximo o risco de outro câncer vale a cirurgia.”

Essa é uma decisão legítima.

O problema é quando a decisão parte de uma ideia incorreta:

“Se eu não tirar as duas mamas, vou morrer.”

Ou:

“Se retirar as duas, nunca mais terei câncer.”

Nenhuma dessas afirmações é verdadeira.

A decisão ideal não é aquela sem emoção — isso seria praticamente impossível diante de um câncer.

A decisão ideal é aquela em que a emoção não substitui a informação.

Reconstrução também precisa entrar na decisão

Uma mama reconstruída pode ter um excelente resultado estético.

Mas ela não é igual à mama natural.

Depois de uma mastectomia, podem ocorrer:

  • diminuição ou perda de sensibilidade;
  • dormência;
  • alterações do mamilo;
  • cicatrizes;
  • assimetrias;
  • complicações relacionadas a implantes;
  • necessidade de novas cirurgias;
  • alterações provocadas pela radioterapia.

Algumas mulheres consideram essas consequências aceitáveis diante da redução de risco que desejam obter.

Para outras, preservar a mama e sua sensibilidade possui grande importância.

Nenhuma dessas preferências está errada.

O importante é descobrir antes da cirurgia o quanto cada uma delas importa para você.

Também é preciso lembrar que fazer mastectomia não significa necessariamente evitar radioterapia. Dependendo das características do câncer, a radioterapia pós-mastectomia pode continuar indicada.


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BRCA também significa pensar nos ovários e trompas

Quando uma mulher recebe o diagnóstico de BRCA, sua atenção naturalmente se concentra nas mamas.

Mas essa não deveria ser a única conversa.

BRCA1 e BRCA2 também estão associados ao risco de câncer de ovário e trompas, e a prevenção desses tumores é parte importante do acompanhamento.

O momento adequado para discutir a retirada redutora de risco de trompas e ovários depende do gene, da idade, do desejo de ter filhos, da história familiar e do tratamento do câncer de mama.

Em mulheres jovens, essa decisão exige ainda mais cuidado porque uma cirurgia ovariana antes da menopausa interfere em fertilidade, saúde óssea, sexualidade, sintomas da menopausa e qualidade de vida.

O resultado genético também pode influenciar tratamentos sistêmicos em algumas pacientes.

Ou seja:

o teste BRCA não existe apenas para decidir quantas mamas retirar.

Dez perguntas antes de retirar uma mama saudável

Se você está considerando uma mastectomia bilateral, leve estas perguntas para sua consulta:

  1. Qual é meu risco pessoal de desenvolver câncer na outra mama?
  2. Esse risco é diferente por eu ter BRCA1 ou BRCA2?
  3. Minha idade modifica muito esse risco?
  4. Posso tratar o câncer atual com cirurgia conservadora?
  5. Retirar a outra mama muda minha chance de sobreviver ou principalmente diminui o risco de outro câncer?
  6. Quanto de sensibilidade posso perder com a mastectomia?
  7. Quais cirurgias provavelmente serão necessárias para completar minha reconstrução?
  8. Posso precisar de radioterapia mesmo fazendo mastectomia?
  9. Estou tomando essa decisão porque compreendi meu risco ou porque estou com medo neste momento?
  10. Se houver segurança para pensar alguns dias, acredito que escolheria a mesma cirurgia depois?

Essas perguntas não existem para convencer uma mulher a preservar a mama.

Também não existem para desencorajar a mastectomia bilateral.

Elas existem para ajudar a transformar uma decisão emocional em uma decisão informada.

Então, qual é a melhor cirurgia?

Não existe uma cirurgia correta para todas as portadoras de BRCA.

Uma mulher pode concluir:

“Quero preservar minha mama e aceito a vigilância.”

Outra:

“Prefiro retirar apenas a mama doente.”

E outra:

“Compreendi que o benefício de sobrevida não está claramente demonstrado, mas quero reduzir ao máximo meu risco de outro câncer e escolho retirar as duas mamas.”

Todas podem ser decisões razoáveis.

O que não deveria acontecer é uma paciente chegar à mastectomia bilateral acreditando que:

“Eu não tinha outra escolha.”

quando, na realidade, havia alternativas.

A melhor cirurgia não é necessariamente a maior nem a menor.

É aquela que trata adequadamente o câncer atual e oferece um equilíbrio entre segurança oncológica, redução de risco, consequências da cirurgia e aquilo que realmente importa para aquela mulher.

Antes de assinar o consentimento, tente completar estas cinco frases:

Eu sei por que estou retirando ou preservando minha outra mama.

Eu sei qual risco essa decisão reduz.

Eu sei quais riscos ela não elimina.

Eu compreendo as consequências físicas e reconstrutivas da minha escolha.

E escolheria a mesma cirurgia mesmo depois de conhecer as alternativas.

Essa é a essência da decisão compartilhada.

Não operar apenas pelo medo.

Não preservar apenas pelo medo da cirurgia.

Mas escolher conscientemente.


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Este artigo possui finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada. A escolha da cirurgia deve considerar idade, BRCA1 ou BRCA2, características do tumor, tratamentos necessários, fertilidade, possibilidades de reconstrução, saúde geral e preferências da paciente.

Dr. Idelfonso Carvalho é um renomado profissional cuja carreira multidisciplinar reflete um profundo compromisso com a saúde e o bem-estar humano. Com uma impressionante formação em Medicina pela Universidade Federal do Piauí (2002) e em Direito pela Universidade Regional do Cariri (2018), Dr. Carvalho construiu um percurso profissional notável, destacando-se em diversas especialidades médicas e contribuindo significativamente para a área da saúde em várias capacidades.

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